Hoje o dia amanheceu cinzento, como se prevesse meu estado de espírito; como se de mim retirasse toda a nebulosidade, cautelosamente exposta, e a expelisse para o ar, fazendo formar densas nuvens, massantes e tão exuberantemente pairadas pela imensidão do céu, que há de se confundir por certo se o que se vê sou eu, ou apenas o firmamento, que se quis pintar de cinza. Não existe porquê na minha desalegria, ou pelo menos, não consigo vê-lo. Assim como as frentes frias e as nuvens: não se sabe por que estão lá, mas elas existem e vivem quase que desapercebidas pela multidão terrena.
Hoje acordei me sentindo nublado e sozinho, como se uma única nuvem pudesse se estender tanto, mas tanto, que solitária ela pudesse cobrir toda a vista para o azul, que em outros dias tão vigoroso era refletido pela cor do mar. E hoje, vindo pela rua, o mar parecia tão calmo, tão sereno, que, por um segundo, confundi-me com as ondas pequenas que intermitentemente batiam-se umas nas outras, como se procurassem todas juntas, as margens de um vasto oceano, e, pelo desandar da vida, acabassem por se espatifar e deixar de existir.
Tudo imprimiu, então, uma morbidez, um estado de catalepsia mental, onde a lentidão e a divagação foram tomando conta. O pelicano, pensei, este continua a rufar as asas, e cair tão pacientemete no mar, tendo despojado já seu alimento há alguns minutos. Inveja em mim esta paciência, esta concentração em existir, esta plenitude de ser.
Hoje o dia amanheceu tão cinzento que nem chuva caiu, está retidas lá, esperando, assim como o pelicano, despojar alguma pobre vítima...